Amados irmãos,
O "pleno conhecimento da verdade" (1 Tm 2:4) certamente não nos é dado na regeneração, mas no desenvolvimento da nossa salvação (Fp 2:12), "até que cheguemos à unidade da fé" (Ef 4:13).
Quando chegou a hora de ser glorificado, Jesus intercedeu por nós ao Pai, revelando qual era a sua principal preocupação, a questão da unidade: "E rogo não somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um; assim como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu lhes dei a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um" (Jo 17:20-22). Esta foi a intercessão de Jesus, a perfeita intercessão, conteúdo dos gemidos inexprimíveis do Espírito Santo, verdadeira expressão da glória de Deus: "Rogo por estes... e por aqueles... para que todos sejam um... um em nós... como nós somos um". Enquanto não for esta a nossa intercessão, o Espírito precisará nos assistir em nossa fraqueza (Rm 8:26) .
Facilmente repudiamos um lar dividido, um casamento desfeito, um desacordo entre irmãos. Mas, será este o mesmo sentimento a respeito do Corpo de Cristo?! Tem sido esta a nossa preocupação? Se a divisão não é abominável aos nossos olhos ela o é para Deus.
Na história de Israel, a divisão do povo de Deus promovida por Jeroboão levou a terrível marca de "o pecado de Jeroboão", "o qual apartou Israel de seguir o Senhor, e os fez cometer um grande pecado" (2 Rs 17:21), dizendo "ao povo: Basta de subires a Jerusalém... E pôs um [bezerro de ouro] em Betel, e o outro em Dã" (1 Rs 12:28,29). Tinha receio de que todo o povo subisse unido a Jerusalém "para fazer sacrifícios na casa do Senhor" (1 Rs 12:26).
Todos sabemos que Jerusalém tipifica a unidade da igreja e que Davi tinha o coração pela edificação, era um homem segundo o coração de Deus (At 13:22).
A atitude de colocar um ídolo em Betel (ao Sul) e outro em Dã (ao Norte) foi a estratégia de Jeroboão para dividir o povo de Deus e assegurar para si o domínio e controle político-religioso. Até então todo o povo sempre subia a Jerusalém para adorar a Deus, em unidade. Jeroboão providenciou que tudo o que se fazia em Dã e em Betel fosse extremamente similar ao que se fazia em Jerusalém, dando a falsa sensação de estarem agradando a Deus, mas era apenas imitação da verdadeira adoração e serviço ao Senhor. Daí, temos uma grande diferença entre a aparência e a realidade do reino.
"Ora, isto se tornou em pecado; pois que o povo ia até Dã para adorar o ídolo" (1 Rs 12:30). Percebamos que o pecado não era apenas relativo à adoração ao ídolo, mas, essencialmente, porque "o povo ia até Dã", quando deveria estar subindo em unidade para Jerusalém. Dã e Betel eram destinos fáceis para o povo de Israel e lá tinham "aparentemente" tudo o que precisavam para um viver "religioso". Por que, então, haveriam de seguir o caminho mais árduo de subir a Jerusalém? Eles já não mais se satisfaziam com Deus, a religião lhes era suficiente. Pensando assim, cometeram um pecado duplo, um grande pecado. E os que ignoraram a gravidade de tão grande pecado passaram a trilhar outro caminho, o "caminho de Jeroboão" (1 Rs 15:34).
Não houve sequer um rei de Israel (dentre os dezenove) que fora aprovado pelo Senhor. Tudo era desgraça, "pelo que o Senhor muito se indignou contra Israel, e os tirou de diante da sua face; não ficou senão somente a tribo de Judá... Pois rasgara Israel da casa de Davi; e eles fizeram rei a Jeroboão... o qual apartou Israel de seguir o Senhor, e os fez cometer um grande pecado. Assim andaram os filhos de Israel em todos os pecados que Jeroboão tinha cometido; nunca se apartaram deles... Depois o rei da Assíria trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria em lugar dos filhos de Israel; e eles tomaram Samaria em herança, e habitaram nas suas cidades." (2 Rs 17:18-24). Aqui temos uma séria advertência: Não subir em unidade significava deixar de seguir ao Senhor. Portanto, foram dispersos e misturados com os povos pagãos da Assíria.
Já, do lado de Judá, enquanto mantiveram-se fiéis ao propósito da unidade, foram ricamente abençoados e honrados, mesmo sendo poucos. Mas, com o tempo, "Nem mesmo Judá havia guardado os mandamentos do Senhor seu Deus; antes andou nos costumes que Israel introduzira" (2 Rs 17:19), "até que o furor do Senhor subiu tanto contra o seu povo, que mais nenhum remédio houve... E aos que escaparam da espada, a esses levou para Babilônia" (2 Cr 36:16-20). Também foram levados cativos, mas juntos, para a Babilônia.
De qualquer forma, Deus sempre teve o testemunho da unidade, historicamente de remanescentes (gr. kataleimma). "Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Pois temos deixado os teus mandamentos... E depois de tudo o que nos tem sucedido por causa das nossas más obras, e da nossa grande culpa, ainda assim tu, ó nosso Deus, nos tens castigado menos do que merecem as nossas iniqüidades, e ainda nos deixaste este remanescente... Não estarias tu indignado contra nós até de todo nos consumires, de modo que não ficasse restante, nem quem escapasse?" (Ed 9:14).
Isso nos serve "como figura e sombra das coisas celestiais" (Hb 8:5), pois o testemunho da unidade do Corpo parece não ser muito levado em consideração pelo povo de Deus, daí a oração intercessória de Jesus (em João 17). Quando nos apegamos a nomes e buscamos identidades próprias, o que transparece é um desejo de mostrar o quanto somos "fiéis" em nossas incumbências diante de Deus, algo que nos é peculiar. Porém, o que acontece é que isso promove e fortalece as diferenças e dissensões. Não convém que seja assim. "Será que Cristo está dividido?" (1 Co 1:13).
"Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que sejais concordes no falar, e que não haja dissensões entre vós; antes sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer" (1 Co 1:10).
Voltando à história de Israel, o Senhor já tinha anunciado por Jeremias: "Eu farei cessar dentre eles a voz do gozo e a voz da alegria, a voz do noivo e a voz da noiva, o som das mós e a luz do candeeiro" (Jr 25:10). O apóstolo João também alerta: "... pratica as primeiras obras... se não... removerei do seu lugar o teu candeeiro" (Ap 2:5). O Noivo é Cristo, a Noiva é a igreja, a luz do candeeiro é a Palavra por meio do Espírito Santo, e a remoção do candeeiro refere-se ao testemunho da igreja. Que O Senhor tenha misericórdia de nós!
Eu creio, sinceramente, que estamos vivendo "os tempos da restauração de todas as coisas" (At 3:21), e isso passa pelo testemunho da unidade do Corpo. Neste sentido, sejamos "cooperadores de Deus" (1 Co 3:9), praticando o amor, que vincula perfeitamente todas as coisas (Cl 3:14).
"Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos" (Sl 133:1).
Em Cristo,
Romualdo.