Autor: A. Ladrierre ("O caminho de Deus em tempos difíceis")
O Senhor tinha já anunciado esta introdução do mal nas parábolas do reino dos céus, que lemos em Mateus, capítulo 13. Jesus tinha sido formalmente rejeitado pela nação judaica, representada pelos seus chefes (Mt 12:14 e 24). Por isso o Senhor rompe todas as relações messiânicas com ela e já não reconhece por Seus senão aqueles que fazem a vontade de Seu Pai, unindo-se a Ele (Mt 12:46-50; Jo 6:29).
Apresenta-Se então, no capítulo seguinte, semeando a Palavra de Deus nos corações, e mostra os diferentes resultados produzidos por essa obra, segundo o estado da alma e a maneira que ela recebe a Palavra. Nas três parábolas seguintes, o Senhor faz-nos conhecer o aspecto exterior que tomará o reino dos céus durante a ausência do Rei que foi rejeitado, e a maneira que ele se estabelecerá.
A parábola do joio ensina-nos que no campo, que é o mundo, o Senhor não tinha semeado senão boa semente, isto é, os filhos do reino, aqueles que lhe pertencem de verdade. Mas, por seu lado, o inimigo, o diabo, semeou o joio, os filhos do mal, entre o bom trigo, aproveitando-se, para tanto, da negligência dos servos do Senhor. E esses filhos do mal não são nem os pagãos nem os judeus, que já existiam quando o reino foi estabelecido. O joio representa um mal introduzido por Satanás no meio dos cristãos. Depois de ter sido semeado o bom trigo, o joio se acha no meio. Os judaizantes, os falsos mestres, os heréticos em breve surgiram e difundiram as más doutrinas, afirmando, contudo, professarem o cristianismo. Tal é o aspecto do reino sobre a Terra, o que testemunha a incapacidade do homem para guardar em pureza o que lhe fora confiado. E esse estado de mistura do bem e do mal podemos facilmente verificá-lo. Poderemos nós trazer remédio contra o mal? Não. O Senhor ensina-nos que as coisas continuarão assim, sempre de mal a pior, até chegar o tempo final da ceifa. O julgamento será então executado sobre os maus, e o bom trigo recolhido no celeiro.
As duas parábolas que se seguem apresentam também o aspecto exterior do reino. Na primeira vemo-lo na figura de uma grande árvore, proveniente de uma pequenina semente. Com efeito, os começos bem fracos do cristianismo, como se sabe, foram seguidos de um crescimento rápido e surpreendente em grandeza e extensão. Em menos de três séculos havia ultrapassado já os limites do vasto Império Romano e não cessou de se expandir. Tornou-se uma grande árvore, na linguagem figurada das Escrituras (veja-se Dn 4:20-22; Ez 31:3-6). Mas esta árvore abriga as aves do céu. É uma mistura também, e é de notar que, em geral, as aves são consideradas símbolos do mal. "As aves" descem sobre o sacrifício oferecido por Abraão, e o patriarca deve enxotá-las (Gn 15:11). "Como uma gaiola cheia de pássaros", diz Jeremias, "são as suas casas cheias de engano" (Jr 5:27). E na parábola do semeador, as aves são a imagem do mal, que arrebata do coração a Palavra do Senhor. Assim o cristianismo, tendo chegado a ser um grande poder sobre a Terra, abriga toda espécie de heresias, de erros e de homens que os sustem, e grande número de incrédulos.
A parábola seguinte é a do fermento, que estende a sua ação a toda a massa pura. Ora, o fermento não é o evangelho enchendo o mundo, porque, por um lado, o mundo corrompido não representa a farinha — uma coisa pura — e, por outro lado, o fermento, na escritura, é sempre símbolo de uma coisa má (Mt 16:11,12; 1 Co 5:6 e 8; G15:9). Não se trata, portanto, do evangelho. A massa sem fermento é o que Deus estabeleceu, e o fermento é o que o homem ali introduziu e vai estragar tudo.
Nessas três parábolas, o Senhor dá-nos a conhecer que o mal, pela ação do inimigo e pela negligência dos servos de Deus, se introduziria no reino que ia estabelecer-se sobre a Terra na ausência do Rei, e que esse mal se estenderia e não mais teria fim, a não ser na hora do juízo final.