"Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; pois vos desposei com um só Esposo, Cristo, para vos apresentar a ele como virgem pura." (2Co 11:2)
"Porque lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas não com entendimento." (Rm 10:2)
Zelo, fervor, indignação e ciúme, todos são significados apropriados para o original grego 'zelos' nos dois versículos que falam do zelo de Deus (2 Co 11:2) e do zelo sem entendimento (Rm 10:2).
De imediato, podemos identificar a principal característica do zelo segundo Deus: é aquele que compreende plenamente que a Noiva é do Noivo, ou seja, a igreja pertence unicamente a Cristo e a mais ninguém. Não existe a igreja do fulano ou do cicrano e muito menos a igreja que este ou aquele edificaram, ou como alguns ousam dizer, "montaram". A expressão chave é "virgem pura" para "um só Esposo" e mais nada ou ninguém e nem qualquer outro relacionamento, pois seria adultério contra o próprio Deus.
A princípio, parece-nos que todo zelo é positivo, mas a Palavra nos alerta para o zelo sem entendimento, cujo significado original é o "zelo sem o pleno discernimento" (gr. epignosis), ou seja, é um zelo sem o foco centrado em Cristo, baseado na justiça própria e no entendimento pessoal, de particular interpretação, produzido pela vontade de homens (2 Pe 1:20) e para homens. Se resume em três passos: (1) não conhecer a justiça de Deus, (2) estabelecer a própria justiça e (3) não se sujeitar à justiça de Deus (Rm 10:3).
Daí surgem os sistemas e métodos religiosos, até mesmo como exemplos de eficiência e sucesso. Com certeza, atendem muito bem aos mais diversos interesses da atividade humana, mas não servem, de forma alguma, para o cumprimento do propósito de Deus, uma vez que a edificação da igreja se dá organicamente, por meio da vida ágape, e nunca organizacionalmente, por melhores que sejam as intenções traduzidas no zelo sem o pleno discernimento.
Zelar é, então, cooperar. E, cooperar, é uma questão de vida. De Deus somos cooperadores, somos a lavoura de Deus e o edifício de Deus (1 Co 3:9), onde só há lugar para o que é orgânico. Por esta razão todo o edifício é bem ajustado e cresce (Ef 2:21). Até a nossa vida natural é impedimento para edificação e deve ser negada (Mt 16:24), muito mais o nosso zelo natural que se manifesta em planejamentos intelectuais do que achamos ser o melhor para que haja crescimento. Vejamos o exemplo de Paulo, que por zelo (sem entendimento) perseguia a igreja do Deus vivo (Fp 3:6). Se o nosso trabalho é plantar, o de outro será regar (ou vice-versa) e ninguém deve se gloriar de coisa alguma (1 Co 3:7), pois o crescimento provém unicamente de Deus. O que plantamos ou regamos não nos pertence, pois a lavoura é de Deus e Ele deixa isso muito claro e explícito para que não haja qualquer dúvida.
Mas, o zelo sem entendimento (Rm 10:2) tende para a autosuficiência e supervalorização do que achamos ser o mais correto, mesmo que confronte a Palavra. Satanás tenta manobrar-nos para que deixemos de depender de Deus e passemos a depender de pessoas, fórmulas e métodos, tendo como alvo destruir o nosso relacionamento com Deus. A nossa cooperação não é em sistematizar ou organizar melhor as coisas de Deus, pois Ele nunca nos confiou isso. Pelo contrário, se simplesmente vivermos a vida que Ele implantou em nós por meio da Sua palavra viva (Tg 1:21), a divina semente (1 Jo 3:9, Lc 8:11), incorruptível e permanente (1 Pe 1:23) teremos feito o que se espera de nós.
Lendo 2 Co 11, vemos que no zelo que provém de Deus ninguém tem qualquer preeminência, pois a Noiva é exclusiva do Noivo (2 Co 11:2). E a continuação do texto nos serve de alerta, pois mostra o intuito do Maligno. O zelo sem entendimento está carregado de astúcia e o que se prega é outro Jesus, outro espírito e outro evangelho (2 Co 11:3-4), todos em confronto à soberana vontade de Deus. E o fato de ser outro agrava a situação por se tratar de algo que tem o objetivo de distrair e confundir.
A falta de discenrimento inclusive nos afasta das respostas de Deus. Os judeus pediam sinais, os gregos pediam sabedoria (1 Co 1:22). Mas, o que se pregava era a loucura e fraqueza de Deus, muito mais sábia e forte do que os homens (1 Co 1:25).
Cristo e a Igreja são um casal vivendo um romance universal. Ele é zeloso, fervoroso, ciumento e se indigna contra quem quer que intente causar dano a este relacionamento puro e santo!
Ninguém em sã consciência dividiria sua noiva ou esposa com outra pessoa, pois resultaria em maldição. Por que Cristo permitiria que Sua amada Noiva carregasse o nome de outros?! E, semelhantemente, por que a amada o faria? Para dividir o seu amor? De forma alguma! Ela inclusive questiona: "por que razão seria eu como a que anda errante pelos rebanhos de teus companheiros?" (Ct 1:7). Quando considerarmos esta questão com a devida seriedade, começaremos a compreender o significado do zelo de Deus e viveremos adequadamente a vida da igreja, como convém no Senhor (Cl 3:18).
Que o Senhor nos alcance com Sua infinita graça e misericórdia.
Cristo é a minha vida e a igreja é o meu viver.
Neles,
Romualdo.